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Diário da Comrades: E aí!? Tá tudo pronto? Tá preparado?
Já estou na Durban. E não, ainda não estou pronto. Essa é a pergunta que mais ouvi nos últimos dias. Vi um vídeo de um africano muito simpático dizendo que se tivesse mais seis meses para treinar, ainda assim ele não se sentiria pronto. Não me sinto preparado, não sinto que treinei o suficiente e não sei o que vai acontecer. Daqui a alguns dias espero voltar a esse espaço com algumas respostas. Mas neste momento tudo continua com a mesma neblina do treino de 50K.
Sei que não é por mal que as pessoas me fazem essas perguntas. Aliás, é justamente o contrário. Perguntar se estou pronto, se estou confiante, entre outras variações, é uma forma de ser simpático e me motivar. Mas a verdade é que não sei responder. Ou melhor: respondo sempre a mesma coisa. “Acho que sim.” Mas com pouquíssima convicção.
E isso é curioso porque, racionalmente, fiz tudo o que precisava fazer. Os treinos foram feitos. O tênis está separado. Os géis estão organizados. A roupa está escolhida. Até o boné já está decidido – se tudo der certo, vou usar aquele vermelho da prova com o logo da Toyota. Sempre paguei pau pra quem usa esse boné nos treinos do Ibirapuera e da USP.
O problema é que existe uma diferença enorme entre estar preparado e saber o que vai acontecer. E mesmo faltando bem poucos dias para a prova, eu não tenho a menor ideia do que vai acontecer.
Curiosamente, quem mais diz que vai dar certo não são os amigos que nunca correram uma ultra. São justamente os veteranos da Comrades. Nato, Zilma, Branca, Zeca… todos falam com uma calma quase irritante que vai dar bom.
E isso é parte do problema. Porque essas pessoas sabem exatamente onde estou me metendo. Conhecem as subidas, os tempos de corte, as horas de sofrimento e os quilômetros finais. Mesmo assim, continuam repetindo a mesma coisa: “vai dar certo”.
Pensamentos mais que acelerados
Estou num nível de hiperfoco difícil de explicar. Minha timeline inteira virou Comrades. Outro dia, depois de ver o vídeo do Tio Mayco na prova, passei uma hora vendo um sul-africano explicar a altimetria trecho por trecho. E confesso que deu um baita frio na barriga. A primeira metade é praticamente uma subida contínua. Depois vêm as ondulações. E eu fico imaginando esses trechos o tempo todo.
Tem vídeos sobre estratégia, hidratação, tempos de corte e medalhas. Tem vídeos de quem conseguiu. E de quem não conseguiu. É beeeem tenso!
Uma das coisas interessantes que descobri foi que as placas da prova trazem informações ao contrário. Elas não mostram o quanto você correu. Mostram o quanto ainda falta. Faltam 80; 70; 60 quilômetros…
Não sei se eu já contei dos grupos de WhatsApp da Comrades… pensa numa galera animada! Tem gente falando sobre o dia ideal para cortar as unhas. Tem gente explicando onde passar vaselina (tô achando que vou passar no corpo inteiro… hahahaha). Outros enviam cálculos da ingestão de sódio. Fazem planilhas para ajudar a controlar o pace em cada trecho da prova… E tem as estratégias de gel da prova, Coca-Cola, batatas, laranjinhas com sal etc etc.
Eu comprei uma quantidade absurda de géis e eletrólitos e passei um bom tempo organizando tudo por quantidade de carbo, sódio, cafeína. Quando você percebe que está dedicando uma parte relevante do seu dia para pensar na ordem certa de 24 géis, talvez seja um sinal de que seu ultra foco está aumentado e a prova está chegando.
Tenho o pensamento acelerado normalmente. Mas agora minha cabeça anda funcionando em modo turbo. Não imagino apenas cruzar a linha de chegada. Imagino também coisas muito específicas: o sorriso da pessoa que irá me entregar a medalha; o toque e o peso da medalha; a textura da fita; a sensação da fita encostando no pescoço… estou delirando mesmo antes de começar.
E já vi tantos vídeos de chegada que quase consigo sentir isso. É uma coisa meio obsessiva. Mas imagino que todo corredor fique um pouco estranho na semana de uma prova importante.
Embora tenha começado o texto falando que ainda não deu tudo certo – e nem sei se dará tudo certo –, devo confessar que recentemente tive um lampejo de esperança. Em um dos meus últimos treinos no Brasil, comecei a acreditar. Não com muita convicção. Mas a acreditar um pouco. Foi uma sensação bem pequena, e bem rápida. Mas foi algo como: “Acho que vai dar bom, sim”.
Talvez seja isso que esteja acontecendo agora. Durante meses convivi com o medo. O medo continua aqui. Mas ele já não está sozinho. Agora ele divide espaço com uma pequena dose de esperança.
Se você sentir vontade de me perguntar se estou pronto, manda ver… pode perguntar… acho que vai me dar uma dose extra de ânimo. E semana que vem espero voltar com respostas mais objetivas.
Por enquanto, só existe uma coisa da qual tenho certeza. Vou dar o meu melhor. Se isso será suficiente para chegar em Pietermaritzburg dentro do tempo… ainda não sei.
Acompanhe meus passos rumo à Comrades, aqui na CR.
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* Cado Santos é publicitário, profissional de marketing, maratonista, triatleta e diretor executivo da Milk, empresa de inteligência estratégica e relacionamento no universo da corrida. Há mais de 20 anos no esporte, lidera projetos que conectam marcas, atletas e comunidades, transformando comportamento e cultura em estratégia de negócio