Quando lancei a revista Contra-Relógio em 1993, os corredores brasileiros não tinham acesso a nenhuma publicação relacionada ao esporte, talvez porque ele era bastante limitado e praticado predominantemente por pessoas de baixa e média renda, daí o desinteresse de editoras. Mas a CR foi em frente, ajudando a melhorar as provas de rua no Brasil (com suas críticas e sugestões) e sempre valorizando os corredores. O resultado se vê hoje no país!
Durante os primeiros anos, tive um relacionamento muito produtivo com Mario Machado, editor da revista Spiridon, que existia em Portugal desde 1978, e eram muitas as semelhanças, a começar por nós dois sermos corredores e jornalistas. Matérias e reportagens eram trocadas entre as duas publicações e, naturalmente, logo me animei a conhecer a terra de meus pais, correndo a Meia de Lisboa, já famosa e organizada por Machado.
Nesse evento, acabei constatando algo absolutamente esdrúxulo. A prova sai do outro lado do rio Tejo, na cabeceira da ponte 25 de Abril e vem em leve descida para Lisboa, quando então os participantes da mini (7 km) se separam dos da meia e já vão para a chegada, em frente ao Convento dos Jerônimos. Antevi essa divisão ao me aproximar de um enorme pilar da ponte, onde estava amarrado um papelão com setas para os dois lados, e as “indicações”: ORGULHO e VERGONHA.
Segui na direção que achava seriam os 21 km, e logo fui consultado por um corredor: “O gajo, esta mini não acaba?” Lhe respondi que estava no caminho errado e deveria dar meia volta para finalizar os 7 km. Além de nada informativa e confusa, a mensagem era uma tremenda grosseria e, logicamente, ao completar, fui saber de Machado a razão para aquela situação.
Ele então comentou que era típico do humor português esse tipo de brincadeira e que ninguém reclamava. Mesmo surpreso com a explicação, aproveitei para lhe perguntar por que em Portugal havia dezenas de meias e nenhuma maratona, ou que já tinham acontecido, mas que não se mantiveram.
O MITO ROSA MOTA
Mario falou que daria a sua versão, mas sem dados concretos para confirmá-la. Vamos a ela. Na época (anos 80 e 90), a corredora Rosa Mota era a principal atleta do país, com inúmeras e importantes vitórias, como o hexa campeonato da São Silvestre paulistana (1981-1986), mas principalmente em maratonas. Ela disputou 21 entre 1982 e 1992 e venceu 14, entre elas a de Boston três vezes, foi campeã mundial em Roma 1987 e ouro olímpico em Seul 1988.

Os feitos de Rosa Mota eram amplamente conhecidos pela população, que comentava sobre suas marcas e colocações. Dessa forma, me disse Mario Machado, quando algum maratonista amador português informava a parentes, amigos, vizinhos ou colegas de trabalho sobre seus resultados, acabava sendo desvalorizado ou ridicularizado (humor português…): “Completastes uma maratona em mais de 4 horas! Então não és nada, pois a Rosa termina em menos de 2h30!”
Então (ainda Machado…) os corredores passaram a preferir fazer meias-maratonas, mas não dando muita ênfase à palavra “meia”, quando falavam sobre suas corridas e o público acabava os elogiando: “Conseguistes terminar a maratona em pouco mais de 2 horas; parabéns, estás melhor que a Rosa.”
A grande atleta portuguesa, hoje com 67 anos, continua ativa nos bastidores do atletismo do país e até participando de provas. E se mantém como uma referência marcante para a população, o que talvez explique porque Portugal ainda é conhecido como a terra das meias, mas agora com algumas poucas maratonas acontecendo anualmente, como as de Lisboa e do Porto.