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Rumo à Comrades: 50K em um treino, quando você volta a ser “iniciante”

Contra Relógio
Blog do Corredor
09/06/2026
Por Cado Santos
Rumo à Comrades: 50K em um treino, quando você volta a ser “iniciante”
Achei que já conhecia todas as sensações da corrida. A preparação para a Comrades está abrindo novos territórios

Outro dia coloquei 15 géis no bolso de um colete de hidratação. Parei por alguns segundos olhando para aquilo e pensei que, se alguém me contasse essa cena alguns anos atrás, eu provavelmente daria risada. Quinze géis para um treino. Só de escrever isso ainda me parece estranho.

A preparação para a Comrades tem me colocado em situações que são familiares e estranhas ao mesmo tempo. Eu corro há mais de 20 anos. Já fiz sete maratonas, triathlon, ciclos de treinamento e largadas em lugares incríveis. Mas ultimamente tenho sentido uma sensação que não experimentava havia muito tempo: a de voltar a ser iniciante.

Não porque estou aprendendo a correr. Nem porque estou começando um esporte novo. O que está acontecendo é diferente. Estou levando para um lugar desconhecido uma coisa que faço há mais de duas décadas.

Recentemente fiz meu primeiro treino de 50 quilômetros. O plano original era correr no sábado, mas acordei com chuva forte e resolvi transferir para domingo. Só essa frase já mostra como algumas coisas mudaram. Durante muito tempo, um treino dessa distância ocuparia minha cabeça por semanas. Agora ele parecia apenas mais um compromisso importante do fim de semana.

Uma ultra em treino

Fui treinar na Estrada Velha de Santos e levei dois flasks, um com água e outro com eletrólitos. Parti com os géis cuidadosamente organizados, um sachê de antiatrito para uma eventual emergência e uma estratégia simples: correr no ritmo mais confortável possível pelo maior tempo possível.

Essa talvez tenha sido uma das maiores mudanças que a Comrades trouxe para a minha forma de pensar. Na maratona, a gente fala muito sobre pace. Sobre qual ritmo é possível sustentar por 42 quilômetros. Na ultra, pelo menos para mim, a pergunta é outra: “qual é a velocidade mais confortável que você consegue manter durante muito tempo?” Não é um raciocínio sobre desempenho, mas sobre permanência.

Eu sabia que precisaria correr 50 quilômetros. Mesmo assim, quando completei o primeiro quilômetro, olhei para o relógio e pensei: faltam 49. Alguns ultramaratonistas dizem que você não deve pensar na distância inteira. Deve negociar pequenos trechos com você mesmo. Cinco quilômetros de cada vez. Uma subida de cada vez. Um abastecimento de cada vez. Comecei a fazer exatamente isso.

Planejei consumir um gel a cada meia hora e isso virou uma espécie de micro recompensa. Eu enfiava a mão no bolso, escolhia um sabor, mudava de ideia, escolhia outro. Parece uma bobagem, mas ajuda a passar o tempo. 

Em determinado momento encontrei um rapaz chamado Silvio e corremos juntos por mais de uma hora. Falamos sobre corrida, trabalho, vida e um monte de outras coisas. É impressionante como o tempo passa de forma diferente quando existe alguém ao seu lado. E estava acontecendo uma prova de triathlon na região, o que colaborou também.

Cado Santos Comrades Treino na Estrada Velha Foto Dalton Yamashita 2
Foto: Dalton Yamashita

Mas aí esse corredor seguiu o caminho dele, a prova acabou e eu fiquei sozinho. E nessa hora a neblina começou a descer. Não havia mais atletas, nem carros, nem movimento. Em determinado momento, era só eu, a neblina e uma estrada praticamente vazia. 

Sozinho comigo mesmo

O ambiente interfere muito no que acontece dentro da nossa cabeça. Eu fiquei mais cansado, mais introspectivo e com aquela sensação estranha de que o tempo estava passando mais devagar. Foi quando comecei a negociar comigo mesmo.

Andei um minuto. Voltei a correr. Alguns quilômetros depois, andei mais um minuto. Voltei a correr novamente. Não era exatamente uma crise física. Era mais uma conversa permanente entre o que eu queria fazer e o que eu precisava fazer para continuar avançando.

No quilômetro 37, parei ao lado do carro para comer uma banana. Nunca imaginei que uma banana pudesse parecer uma recompensa tão valiosa. Dois minutos depois, voltei para a estrada me sentindo muito melhor.

Logo adiante, aconteceu uma cena mais divertida de contar do que foi de viver. Meu flask furou e espirrou eletrólito diretamente no meu olho. Ardeu muito. Muito mesmo. Mas, em vez de ficar bravo, comecei a rir. Lembrei de uma frase do Ariano Suassuna que gosto bastante: “tudo o que é ruim de passar, é bom de contar.”

Metade da Comrades

Continuei correndo. E então aconteceu o momento mais marcante do treino. Quando passei dos 42 quilômetros, senti aquela satisfação automática que todo maratonista conhece. Mas alguns minutos depois, quando o relógio marcou 43 quilômetros, pensei uma coisa que nunca tinha pensado: “Estou na metade da Comrades.” Foi uma sensação difícil de explicar. Eu tinha acabado de correr uma maratona inteira. E ainda faltava outra.

Acho que foi nesse momento que a Comrades deixou de ser uma ideia distante e virou algo real. Até então, os 86 quilômetros existiam no papel, nas conversas, nos vídeos e nos relatos. Pela primeira vez, consegui sentir o tamanho daquilo.

Terminei os 50 quilômetros bem. Consegui até acelerar nos metros finais. Fiquei feliz por ter completado a maior distância que já corri na vida. Mas, curiosamente, o treino não trouxe a tranquilidade que eu imaginava.

Muita gente me perguntou se esses 50 quilômetros me deram mais confiança. A resposta sincera é que sim e não. Sim, porque eu nunca tinha corrido 50 quilômetros antes. Não é pouca coisa. Mas também não, porque a Comrades continua sendo maior do que isso. 

Quando terminei o treino, a primeira coisa que pensei foi que ainda faltariam mais 36 quilômetros. E não quaisquer 36 quilômetros. Faltariam subidas, descidas, calor, horas de esforço e tudo aquilo que ainda não vivi.

Talvez seja justamente essa a grande lição dessa preparação. Quanto mais eu avanço, mais respeito eu tenho pela prova. E quanto mais respeito eu tenho pela prova, menos certezas aparecem.

Achei que já conhecia todas as sensações que a corrida poderia me oferecer. Mas a preparação para a Comrades está me mostrando que ainda existem territórios desconhecidos. E é exatamente por isso que estou tão ansioso para chegar à largada.

Acompanhe aqui na CR meus passos rumo à Comrades Marathon, que acontece no dia 14 de junho.

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Cado Santos é publicitário, profissional de marketing, maratonista, triatleta e diretor executivo da Milk, empresa de inteligência estratégica e relacionamento no universo da corrida. Há mais de 20 anos no esporte, lidera projetos que conectam marcas, atletas e comunidades, transformando comportamento e cultura em estratégia de negócio.