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Back to newsDiário da Comrades, capítulo final: “Eu consegui!”
Não consigo dizer como acordei no dia da prova, porque dormi muito pouco – acho que umas três horas. Estava ansioso, apreensivo, com medo mesmo. O pensamento foi algo como: “É agora, não tem mais tempo”. Não dava mais para treinar. Não dava mais para mudar nada. Era aquela sensação de engolir o choro e ir. Está com medo? Vai com medo mesmo.
Fui para a largada muito quieto, meio catatônico. Quando cheguei à minha baia e começaram os rituais da prova, aquilo foi me despertando aos poucos. Primeiro tocou o hino da África do Sul. Depois o Shosholoza, com milhares de pessoas cantando juntas, inclusive eu. Mas o momento que mais me emocionou foi quando começou a tocar o tema de Carruagens de Fogo. Aquela música me levou imediatamente para lembranças da minha infância, do meu pai, de uma época da vida que eu não visitava havia muito tempo. Mexeu comigo. Foi bonito. Foi ali que percebi que estava vivendo algo que sonhava havia anos. Mas meu pensamento não era exatamente “estou na Comrades”. Era mais simples: “Está acontecendo”.
Durante toda a preparação falei muito sobre medo. E na prova ele deu sinais cedo. Por volta do quilômetro 30 comecei a sentir sinais de câimbra. Eu nunca tinha passado por uma situação dessas numa prova tão longa e não fazia ideia de como meu corpo reagiria. Eu havia levado alguns sachês específicos para isso, uma espécie de líquido ácido que lembra vinagre ou suco de picles. Tomei um. Depois outro. Depois outro. E acabou.

Vi a medalha indo embora
Mas o medo de verdade veio entre os quilômetros 60 e 70. Eu estava seguindo o bus – que é como eles chamam os pacers da Comrades –, que ditava o ritmo de 11h30min. Ele tinha se transformado no meu guia emocional e espiritual dentro da prova. Quando percebi que não conseguia mais acompanhá-lo e o vi se afastando, tive a sensação de que a medalha estava indo embora junto. Foi quando realmente achei que não conseguiria terminar. O medo só foi embora quando vi a placa indicando que faltavam três quilômetros.
A real é que passei por vários momentos difíceis. O mais difícil emocionalmente foi quando perdi contato com o bus e comecei a acreditar que não conseguiria concluir dentro do tempo estipulado. Fisicamente, foi uma descida entre a Little Polly e a Polly Shorts. Eu estava com as duas panturrilhas travadas, os quadríceps travados e o pé entortado pelas câimbras. Precisava correr para ganhar tempo, mas cada passada doía. Ali descobri uma coisa que nunca imaginei: é possível correr com muita dor.
Fazer cálculos durante os quase 86 quilômetros também enlouquece a gente. Faltavam cerca de 16 ou 18 quilômetros e eu olhava para o relógio tentando descobrir se ainda era possível chegar antes das 12 horas. Cheguei à conclusão de que não ia dar. Pensei no último portão de corte. Pensei várias vezes que perderia a medalha. Fiquei muito triste e frustrado. Passei um bom tempo acreditando que a prova tinha escapado das minhas mãos.
Sobe e desce de emoções
Assim como o percurso, feito de altos e baixos, são as emoções de quem corre. Por isso, entre um medo, uma dor, um desânimo, também acontecem coisas que ficam gravadas para sempre no coração. Uma das que mais me impressionou é que durante os mais de 85.777 quilômetros há gente praticamente o tempo inteiro incentivando os corredores. Crianças pedindo high five, moradores distribuindo comida, voluntários fazendo massagem nas pernas dos atletas. No quilômetro 50 e poucos, não tem como não se emocionar com as crianças de uma escola alinhadas esperando os corredores passarem. Ou a chegada propriamente dita. Na minha vez, vivi uma cena de cinema. Virei a última rua e vi um grupo de mulheres cantando Shosholoza enquanto o sol se punha. É algo que nunca vou esquecer.
Teve também um momento muito curioso e divertido na prova. Eu estava correndo com a camiseta malhada da Milk. Em determinado ponto, encontrei a turma do Zeca. Pouco depois chegamos à área da ONG The Cows – As Vacas. O Gabriel olhou para mim e gritou: “Cado, chegou a sua hora de brilhar.” E eu fui. Comecei a mugir para as vacas. As vacas mugiram de volta. Foi uma verdadeira festa e extremamente engraçado.

Alegria em forma de gente
Eu já esperava uma prova duríssima, mas me surpreendi muito, a prova foi, no mínimo, umas 20 vezes mais difícil do que eu imaginava. Porém houve uma coisa que me surpreendeu ainda mais: o povo sul-africano. A alegria. As músicas. A forma como acolhem os corredores. A energia que existe ao redor da prova. A Comrades é muito maior do que a própria Comrades. Ela é potencializada pelo país e pelas pessoas que fazem aquela experiência. Acredito que essa prova não seria deste tamanho se não fosse ali.
E, claro, em vários momentos lembrei das conversas que tive durante meses com o Branca, a Zilma, o Nato, o Zeca, o Togumi e tantos outros. Quando o Branca disse que eu morreria duas ou três vezes durante a prova, ele estava quase certo – morri umas 10 vezes. Quando a Zilma falou que o bicho pegava depois do quilômetro 60, ela estava quase certa, o bicho me pegou na metade da prova e não me largou mais até o final. Eu entendi que eles não estavam falando apenas da dificuldade física. Estavam falando daqueles momentos em que a cabeça começa a negociar a desistência. E eu vivi isso inúmeras vezes.
A chegada foi muito diferente do que eu imaginava. Estava exausto demais para ter aquela reação clássica de chorar na linha de chegada. Na verdade, minha sensação foi de alívio. O encontro com o Nato Amaral (embaixador da Comrades, que fez 21 vezes a prova) logo depois da linha de chegada – fizemos tempos muito próximos – foi até engraçado. Olhei para ele e perguntei: “Por que você volta para fazer esse inferno?” Ele respondeu: “Eu também me pergunto isso.”
Quando a ficha caiu
Uma emoção forte e inesperada brotou mesmo no dia seguinte. Estava tomando café e falando sobre tudo o que tinha acontecido. Olhei para os nomes dos meus filhos – Felipe e Malu- que eu tinha escrito na mão antes da largada. Olhei para a pulseira que tinha um significado especial e que levei durante toda a prova. Lembrei da frase que meu amigo Ivan disse antes da viagem: “Essa é a sua prova.” E aí comecei a chorar.
A resposta para a pergunta que mais ouvi antes de embarcar – sobre estar preparado – é sim e não. Sim, porque terminei a prova. Não, porque hoje vejo várias coisas que poderia ter feito melhor: mais treino de subida, mais força, menos peso.
Se existe um aprendizado em tudo isso, talvez seja ter descoberto que sou muito mais forte do que imaginava. Não mais rápido. Não melhor. Mais forte. Eu nunca imaginei que conseguiria correr tantos quilômetros com câimbras, medo e dúvidas. E consegui.
Se valeu a pena toda essa maluquice? Sem dúvida. Foi a experiência mais difícil e uma das mais emocionantes que já vivi. Se eu faria tudo de novo? Na noite da prova eu disse que nunca mais voltaria. Na segunda-feira continuei dizendo que não. Na terça estava quase convencido disso. Hoje já estou olhando informações sobre a centésima edição.

Não estou dizendo que vou voltar. Mas também não estou dizendo que não vou. Talvez agora eu tenha entrado naquele grupo estranho que eu observava de longe. Aquele dos monges. Aquele das pessoas que falam sobre a Comrades com um brilho diferente nos olhos. Aquele das pessoas que sabem exatamente o quanto ela dói. E, mesmo assim, continuam voltando.
Talvez o Nato esteja certo. Talvez ninguém consiga explicar completamente por que volta. Talvez seja preciso viver para entender. Se hoje alguém me perguntar por que fui inventar de correr a Comrades, continuo sem uma resposta concreta. Mas agora entendo por que tanta gente volta.
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*Cado Santos é publicitário, profissional de marketing, maratonista, triatleta e diretor executivo da Milk, empresa de inteligência estratégica e relacionamento no universo da corrida. Há mais de 20 anos no esporte, lidera projetos que conectam marcas, atletas e comunidades, transformando comportamento e cultura em estratégia de negócio.